A diferença entre a inteligência e a estupidez é que a inteligência é limitada.

O título de artigo que agora inicio é do célebre Roberto Campos. Roberto Campos, assim como todos nós, não era perfeito… Mas, como todo buscador da verdade, tinha na racionalidade um porto seguro para a tomada de decisões.

A semana que terminou ontem foi uma daquelas que não podemos e nem devemos nos esquecer tão cedo. Além da intensidade de eventos, alguns deles além do mundo do futebol, a reação a esses eventos pelo público em geral foi algo que transcendeu todo e qualquer prognóstico.

O evento dramático que aconteceu no Ninho do Urubu, nome dado ao CT do Flamengo, foi algo que comoveu a todos, independente de paixões clubistas. Saber que adolescentes morreram queimados por descaso é repugnante demais para ser expresso em meras palavras. Discordo daqueles que dizem que o Flamengo é culpado. Seria o mesmo que dizer que o Vasco foi culpado pela queda do alambrado na final da Copa Havelange. A instituição é inerte em relação a ações que geram responsabilidades. Quem as toma é que é o verdadeiro culpado. Defendo a apuração rigorosa do que aconteceu e a responsabilização de quem tomou a decisão de alojar aqueles garotos num lugar que se assemelhava a uma jaula. São esses nomes que precisam vir a tona, de modo a que o evento não caia no esquecimento e que os demais responsáveis por outros CT’s comecem a se preocupar com a segurança da vida humana que está sob sua responsabilidade.

O que faz a diretoria do Vasco da Gama diante disto? Presta uma homenagem a quem não teve responsabilidade alguma, mas foi vítima. A bandeira do Flamengo, estampada no uniforme era uma referência às vítimas do drama vivido na instituição Flamengo, assim como a homenagem relativa a tragédia das chuvas no Rio.

Uma pausa aqui: confesso que no momento que soube como seria feita a homenagem, me passou pela cabeça: “será que não havia outra forma de se fazer essa homenagem?”. Meu questionamento era óbvio: eu tinha certeza absoluta que haveria combates acirrados contra o fato de uma bandeira do arquirrival estar estampada em nosso uniforme.

A história da Humanidade está repleta de atos que não foram compreendidos em sua época pelos pares de quem os cometeu… Mas isso não desmerece os atos em si. Gandhi foi questionado pelos seus pares em sua política de não-agressão. Até mesmo Jesus, em todo o seu amor e sabedoria, foi questionado. Mas a grandeza do Ser Humano não está nos erros que comete, e nem no “não-entendimento” de atos nobres. A grandeza ocorre no reconhecimento de que errou em seu julgamento e muda de posicionamento para o que é correto.

Porque estou dizendo isto? A homenagem do Vasco, como instituição, certamente não agradou a uma parcela dos sócios e torcedores. Mas seu efeito em todo o setor esportivo, de imprensa e nas torcidas adversárias foram de tamanho ímpeto positivo, que podemos hoje dizer que o Vasco, além de não ter nenhum prejuízo com isso, ao contrário, só teve benefícios. A corrente do bem que foi formada é de tal monta, que até hoje eu recebo mensagens de amigos de outros clubes parabenizando o meu clube pela iniciativa. Eu mesmo, que a princípio achei que a forma da homenagem iria causar problemas, percebi ao longo dos dias seguintes duas coisas: a primeira foi que a mensagem subliminar que havia na camisa do Vasco era de algo muito poderoso: o amor! E, como todos nós sabemos, o amor sempre vence! Foi essa força que não foi compreendida plenamente por muitos e certamente não será ainda por alguns que estão lendo estas linhas.

E é justamente aí que entramos na segunda coisa que constatei esta semana: A de que o Vasco não voltará a ser o gigante que foi no século XX enquanto as pessoas que tem algum poder dentro do clube não compreenderem a verdadeira “alma vascaína”, que é a do amor, da compreensão das diferenças, e do progresso. Foram esses valores que tornaram o clube um Gigante em todas as suas facetas, e que superaram todas as adversidades, sendo a mais famosa o preconceito que nos obrigou, em 1924, a sair da associação que tanto lutamos para ser campeões de futebol em 1923.

Não podemos acreditar que em 1924, a ideia de que todo ser humano é igual, independente de cor de pele e classe social, era unanimidade em nosso clube. Certamente era majoritária, mas não podemos ser ingênuos a pensar que não houve alguma parcela de vascaínos que não concordou com isso. Se esses vascaínos reconheceram a grandeza do gesto de 1924 depois e passaram a defender aqueles valores, isso é outra história. O fato é que o Vasco se tornou para sempre um clube diferenciado no mundo do futebol, e não pela voz de uma possível minoria, mas sim pela grandeza do gesto praticado pela maioria, que apoiou o presidente a emitir a Resposta História.

Voltando a 2019, temos hoje um grupo que, de forma totalmente deletéria aos valores do clube, e ignorando totalmente a repercussão positiva do ato e seu alinhamento com esses valores, comete uma insensatez, que é motivo do título deste artigo: 102 vascaínos, entre eles beneméritos e conselheiros (alguns meus amigos), decidiram assinar uma nota de repúdio a esse gesto. Segue o texto da Nota:

“NOTA DE REPÚDIO

Os membros do Conselho Deliberativo abaixo mencionados repudiam de forma veemente a colocação da bandeira de um outro clube na sagrada e centenária camisa vascaína.

A irrestrita solidariedade às vítimas da tragédia, que atingiu tantos jovens talentos, não pode servir de pretexto a gestos demagógicos, que atentam contra nossas tradições e ferem frontalmente o estatuto do clube.”

Oras, ou eu estou ficando totalmente demente ou desaprendi a falar português lendo essa nota. Inicialmente, segundo o dicionário Priberam (2008-2013), “demagogia” significa:

1. Preponderância do povo na forma do governo.
2. Abuso da democracia.
3. Dominação tirânica das fações populares.
4. Discurso ou ação que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político.

Onde houve isso no ato praticado? Alguns podem até pensar no item 4, imaginando que Campelo ganharia alguma coisa politicamente falando… Mas o ato vai tão além das questões políticas, que chega a ser risível imaginar isso de forma séria… Além disso, um ato de grandeza, com o simbolismo que se reveste, ser classificado como “que atentam contra nossas tradições” (SIC), é algo que foge a qualquer razoabilidade e racionalidade, como já visto acima. Nem vou entrar na afirmação de que fere o estatuto do clube porque teria que escrever outro artigo somente sobre isso…

Não estou afirmando que os 102 vascaínos que assinaram a nota são “estúpidos”, antes que alguém comece a distorcer este artigo. Estupidez está em quem sabe que está agindo errado e permanece errando. Não sei se é esse o caso e prefiro imaginar que não seja. Como disse acima, a grandeza do Ser Humano está em reconhecer que equívocos fazem parte de nossa vida e que devemos reconhecê-los para evoluirmos. Há amigos nesse grupo dos 102 que eu confesso estranhar a assinatura dessa nota. Mas, mesmo assim defendo o direito deles se manifestarem como o fizeram. Se eles não reconhecerem o equívoco em assinar essa nota, paciência. É direito deles e não serei eu a desmerecer esse direito – estamos em uma democracia e sou ferrenho defensor dela.

O que quero deixar claro, para quem conseguiu ler até aqui este longo artigo, é que o Vasco tem uma essência como clube… uma “alma”… E esse clube prosseguirá com essa alma, mesmo que alguns integrantes do clube não a tenham compreendido em sua plenitude, seja por falta de percepção, seja por motivação política, que cega o coração, e deforma a razão. Espero sinceramente que se não todos, a maioria reconsidere e perceba que há muito mais em jogo do que os motivos que eles alegam em seu “repúdio”. A ação desta semana resgatou em parte essa alma. Se foi da melhor maneira, não posso afirmar. Mas confesso que vi, em razão dela, coisas muito positivas que não via há muito tempo, principalmente durante a “Era Eurico” no clube.

Por fim, não posso deixar de repudiar as declarações do presidente do Fluminense, que destruíram toda a beleza de um grande clássico do futebol brasileiro ao colocar um clima de “guerra” (SIC) para o jogo de hoje. Foi um ato de tanta insensatez, que chegamos ao absurdo de ter uma decisão de uma desembargadora impedindo a entrada de torcedores na partida. Fico sem palavras neste momento para falar de forma ponderada o que penso disso…. Prefiro aguardar o desenrolar jurídico de forma a colocar um pouco de sensatez nesse imbróglio e que o desfecho do jogo de hoje não se torne uma “tragédia fabricada” por pessoas que não medem consequências em seus atos.

Se Deus nos permitir, bom jogo a todos e que vença aquele que realmente fez por onde para merecer a vitória.

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André Pedro
André Pedro
André Pedro é sócio remido do Vasco da Gama com mais de 30 anos de clube, e também fundador e editor responsável do portal webvasco.com. Sua formação é na área de informática e comanda a empresa Digital Solutions, especializada em soluções de internet.