Quando o melhor ataque é a defesa!

Acompanho de perto o passo-a-passo do Vasco como torcedor desde o final da década de 1980. Com meus trinta e sete anos de idade, aprendi a ver, no clube, times de futebol (campeões) montados em que o grande forte era o setor defensivo, leia-se: goleiro, zagueiros, laterais e volantes. 

De forma contrária a outros grandes times formados, no Vasco quase sempre foi observado por mim um cuidado especial com a formação desse setor em nossa época das mais gloriosas, que se propagou até o final de 2000. Talvez com exceção das defesas dos campeonatos brasileiro de 1989, cuja dupla de zaga era Marco Aurélio e Quinones, e dos títulos da Mercosul e do tetracampeonato brasileiro de 2000, tendo como beques Odvan e Júnior Baiano, em que esses miolos de zaga não inspiravam confiança. Todavia em ambas as ocasiões, tínhamos virtudes em outros setores que compensavam a falta de qualidade de nossos zagueiros, levando-nos aos títulos em ambas as ocasiões. 

Passeando pelo tempo, nos deparamos com a lembrança do bicampeonato carioca 1992-1993, em que Jorge Luís (zagueiro-artilheiro, fazia muitos gols de cabeça e de falta) e Torres eram nossos zagueiros, Pimentel e Eduardo (depois, Cássio em 1993) nossos laterais, Luisinho e Leandro Ávila nossos volantes e nosso goleiro era Carlos Germano. Formação defensiva que se manteve em sua base até o tricampeonato em 1994, substituindo-se somente Jorge Luís (que foi pra reserva) por Ricardo Rocha (um dos líderes da conquista brasileira do tetracampeonato nesse mesmo ano, nos EUA).  

Em 1997, novamente campeões brasileiros, com uma defesa em que um novato e limitado tecnicamente Odvan chegou à seleção brasileira apoiado pela técnica de Mauro Galvão, zagueiro de 36 anos na época, por sinal, o melhor do Brasil e que só não foi à Copa de 1998 por teimosia de Zagalo. Válber (e depois, Vágner) e Felipe eram nossos laterais, Luisinho e Nasa (limitado, mas um marcador nato que muito cooperou com o time da época) eram nossos volantes, e no gol, ainda, Carlos Germano, que por sinal lá permaneceu até o final de 1999. As duplas de ataque (Edmundo e Evair,em 1997, e Donizete e Luisão em 1998) junto com o setor ofensivo de meio-campo (Juninho, Ramón e, muitas vezes, Pedrinho), ainda que pese a grande qualidade técnica que cada jogador tinha, jogavam despreocupadas. 

No caso de 1998, entretanto, eu tenho uma opinião muito particular, em que considerei na época o setor defensivo seguro do Vasco como grande ponto forte na conquista da Libertadores, em 1998. E um jogo, para mim, foi emblemático no que estou comentando: o da volta das oitavas-de-final dessa mesma competição diante do Cruzeiro – até então, atual campeão da competição sulamericana. Havíamos vencido a ida em São Januário de virada por 2 vs 1, e foi a defesa que segurou aquele empate em 0 vs 0 diante de um Mineirão superlotado de celestes. Comprovávamos, ali naquele dia, a grande capacidade que nossa defesa tinha de segurar pressão das mais complicadas, e tomamos o fôlego que faltava para arrancar pro título. 

Guardadas as devidas proporções em relação a técnica e capacidade individual de cada jogador em épocas muito distintas, algumas semelhanças em termos de formação podem ser notadas: em todas as ocasiões, o Vasco tinha uma defesa madura, entrosada, cujos jogadores jogaram juntos por vários anos. Não é diferente do atual momento: de nosso setor de defesa, Martín Silva, Luan e Rodrigo estão juntos desde janeiro de 2014. Mádson, há um ano e meio, é titular desse time. São semelhanças, mas que dizem muita coisa. A falta de bons atacantes são, de certa forma, compensadas no atual momento por um time maduro, com dois veteranos que sabem jogar no meio de campo, e também com uma defesa que, além de já ter cooptado a confiança de grande parte de nossa torcida, vez ou outra resolve o jogo lá na frente. Foi assim diante do CRB nos dois jogos da Copa do Brasil (no segundo, com direito a zagueiro reserva entrando e metendo gol como atacante). Foi assim diante do Tupi, no último sábado. E até mesmo contra o Botafogo, no empate que nos deu o bicampeonato carioca depois de 23 anos, e o título carioca invicto, depois de 24.

Isso não quer dizer, no entanto, que devamos sempre jogar essa conta de se resolver o jogo – devido à inoperância do ataque – para a defesa! Muito pelo contrário, devemos cobrar da diretoria para que o time – muito bom na defesa, mas muito carente na dupla de ataque – tenha, ao menos, duas contratações para esse setor. De forma muito sincera, não creio mais que Thalles (tampouco Leandrão) sejam as soluções que precisamos. A esse primeiro, inclusive, sugiro emprestá-lo para outro clube, de menor expressão, preferencialmente das séries C ou D, para que se recupere através do sofrimento e sinta na pele o que é a vida de um atleta (muitas vezes de talento, tal como ele já aparentou ter um dia) fora de um grande centro do futebol, tal como o Vasco está situado. Apostar em jovens ainda inexperientes como Caio Monteiro ou Evander como soluções de momento soa à irresponsabilidade. 

Enfim por hora, temos um time com muito mais virtudes do que defeitos, mas cujo principal defeito deve ser consertado o quanto antes. Em que pese o fato de nosso setor defensivo ser bem encaixado, precisamos de um centroavante nato, com fome de gol para ontem. Pelo menos, UM! Não para a série B, que tal conforme já falei, o Vasco tende a passar fácil com ou sem atacantes de qualidade, pois de tão fraca a própria camisa já cumpre o papel de fazer o clube subir. Mas sim, para a Copa do Brasil, isso se o intuito de nosso Presidente, tal como em suas palavras, for conquistá-la de fato. 

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Alguns pitacos finais: 

– Jorginho faz um grande trabalho, mas errou TUDO na última quarta-feira. Ressuscitou para o time jogadores que não precisava, escalou mal e mexeu ainda pior no time durante o jogo…só acertou ao colocar Rafael Vaz de centroavante diante da falta de fome de fazer gol de Thalles. Entretanto, poderíamos ter sido eliminados, e a culpa seria exclusivamente dele, Jorginho! Muito ganha aquele que preza pela simplicidade, e nesse time do Vasco, não há muito o que mexer agora; 

– Falando em Vaz, lamento por sua virtual saída do clube. LONGE de ser um craque, mas sem dúvida, útil ao time sempre que lhe é dada uma chance. Tal como Riascos, fará falta para composição de plantel, pois olhar para a reserva e ver que temos Aislan como opção é de doer a alma! Quanto a Riascos, é mais folclórico do que jogador, mas FAZ FALTA, SIM, hoje a esse time! Aceitemos que doi menos; 

– Vou fazer uma mea-culpa aqui e reconhecer, enfim: Júlio dos Santos fez, talvez no último sábado, seu melhor jogo vestindo a camisa do Vasco. De seus pés, saíram boas jogadas com Yago Pikachu, contra o Tupi. E o tão criticado Jorge Henrique é, SIM, MUITO IMPORTANTE taticamente para o grupo! Não tanto por seu papel ofensivo, mas sim, para recomposição da marcação em meio de campo. Saí do nicho dos que o pedem fora, e ainda mais para a entrada de Éder Luís, nas circunstâncias atuais; 

– Da série "perguntar não ofende": por que um preço de CINQUENTA REAIS para um ingresso de arquibancada, para um jogo de Série B?! 

@mscmariotti   

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About the Author

Cristiano Mariotti
Cristiano Mariotti
Mestre em Ciências em Sistemas Computacionais, Consultor e Professor em TI. Carioca de família portuguesa, nascido e criado em Jacarepaguá, adoto São Januário como meu segundo lar e levo a cruz-de-malta em meu peito desde que eu nasci.